“A construção de uma torre evoca Babel, a porta do céu, cujo objetivo era o de restabelecer por um artifício o eixo primordial rompido e por ele elevar-se até a morada dos Deuses. Têm uma parte subterrânea marcada por uma blocagem ou um profundo poço central. Unem, assim, os três mundos: céu, terra e mundo subterrâneo. As torres, na Idade Media, podiam servir para espreitar eventuais inimigos, mas tinham ainda um sentido de escada: relações entre céu e terra, que recordavam por degraus. Cada degrau da escada, cada andar da torre marcava uma etapa na ascensão.” (Chevalier J. ,Gheerbrant A. p. 888/889)
Na minha prática clínica venho trabalhando com crianças e suas famílias, realizando psicodiagnóstico, ludoterapia, arteterapia, trabalho corporal e orientação aos pais. Atualmente tenho focado nos estudos da primeira infância e desejo me aprofundar na sua compreensão. A linguagem da criança é puramente simbólica e corporal. Assim, minha intenção com o presente trabalho é apresentar brevemente alguns pontos relevantes da relação entre o corpo e o desenvolvimento psíquico.
Quando as coisas não dão certo na sociedade, questionamos as condições da vida familiar. Ao nos depararmos com a sociedade flagelada pelo crime, por alguns momentos pensamos: se pudéssemos voltar para época que a família era sagrada... A família de qualquer época é, ao mesmo tempo, boa e má, oferecendo tanto apoio como ameaça. Não existe família perfeita, é um microcosmo que reflete a natureza do mundo, regido tanto pela virtude como pelo mal. É na família onde nasce a alma, é nutrida e lançada para a vida. Aqui encontramos vários personagens, não estou pensando na família tradicional, e sim nos primeiros cuidadores, nas pessoas que fizeram parte dos primeiros vínculos afetivos.
“Segundo a pesquisa de René Spitz com crianças hospitalizadas, a negligência com o cuidado emocional delas durante o primeiro ano de vida pode levar às mais sérias perturbações, mesmo quando a nutrição e o cuidado físico estão, de outro modo, perfeitos. Crianças emocionalmente privadas apresentam depressão infantil, que se manifesta por meio do vômito, distúrbios intestinais, insônia e, sobretudo, por uma passividade geral”. (Jacoby 2010, p. 51) “Na relação mãe-filho, a mãe representa os dados ambientais, ou poderia ser dito, que a mãe é a representante do ambiente. Do lado da criança, os dados compreendem o equipamento congênito do bebê. De um lado, a mãe, com sua individualidade madura e estruturada, de outro lado, a criança, cuja individualidade vai se abrindo, desenvolvendo e estabelecendo progressivamente, os dois estão em continua interrelação circular.” (Spitz R.1983, p.101)
O carinho da mãe, o conforto que ela propicia, suas demonstrações de afeto, constituem experiências nas quais o bebê vai sendo constituído O olhar, o toque, o tom de voz, o cheiro, o embalar, todo contato corporal entre o bebê e a mãe deixam registros na nossa “memória corporal”. “...independentes do tempo e do espaço, certas experiências parecem ficar congeladas, de forma que algo acontecido há muito tempo possa ser vivido como se tivesse acabado de acontecer. Muitas vezes, um toque corporal ou um relaxamento fazem com que as memórias corporais reapareçam, trazendo muitas lembranças passadas.” ( Arcuri, 2006, p.18)
Quando o bebê é acariciado com as mãos frias como gelo, dificilmente sentirá como agradável. A qualidade da estimulação cutânea transmite a mensagem que será elaborada com base numa complexidade de fatores. É possível pensar que, uma parte do modo como a pessoa se coloca corporalmente, sua postura, posiciona sua cabeça e ombros, movimenta membros e troncos, esteja relacionada às suas primeiras experiências. “A pessoa ansiosa, seja ela bebê, criança ou adulta, tende a enrijecer seus e secura da pele”. (Montagu 1988, p. 113)
A observação do corpo, diz tanto sobre seu desenvolvimento quanto as suas maiores necessidades. Por isso utilizei a expressão o corpo como torre do tesouro, pois abriga em si tudo que há de mais precioso, se expressando através das sensações e imagens simbólicas.
Na busca de compreender a constituição do ser humano e sua totalidade de forma ampliada, relacionando os aspectos fisiológicos, psicológicos e ambientais, encontro a necessidade de incluir o aspecto simbólico, arquetípico como mencionado por Jung em sua profunda e sábia teoria. “Os símbolos do si-mesmo surgem na profundeza do corpo e expressam a sua materialidade tanto quanto a estrutura da consciência discriminadora.” (Jung. 2008, p.173) Edinger, em seu livro Ego e Arquétipo, descreve sobre o estado de “inflação” que nascemos. “Na mais tenra infância, não existe ego ou consciência. Tudo está no inconsciente. O ego latente encontra-se completamente identificado ao Si-mesmo. O Si-mesmo nasce, mas o ego é construído, e no princípio, tudo é Si-mesmo. Este estado é descrito por Neumann como a uruborus (a serpente que morde a própria cauda). Como o Si-mesmo é o centro e a totalidade do ser, o ego totalmente identificado ao Si-mesmo percebe-se como divindade. Podemos descrever a situação nesses termos, retrospectivamente, embora o recém-nascido não pense dessa forma. Na verdade, ele nem pode pensar. Mas seu ser e suas experiências totais estão ordenadas em torno de uma suposição a priori de que ele é uma divindade. Esse é o estado original de unidade e perfeição com relação às nossas origens, tanto pessoal como historicamente.” (Edinger,2012, p. 27) E continua, “do ponto de vista dos anos que se seguem à infância, o estreito vínculo existente entre o ego da criança e a divindade constitui um estado de inflação. Muitas dificuldades psicológicas subseqüentes são uma decorrência dos resíduos daquela identificação com a divindade. Considere-se nesse sentido, a psicologia da criança nos cinco primeiros anos de vida. Trata-se, de um lado, de um período de grande novidade em termos de percepção e de resposta, a criança se encontra em contato imediato com as realidades arquetípicas da vida”. (Edinger,2012, p. 31)
O ego vai se constituindo á medida que se afasta, se distância da totalidade Si-mesmo, para que isso ocorra é necessário a intervenção da mãe que a príncipio responde a exigência da criança que tem a experiência bem concreta de ser o centro do universo. É extremamente importante este afastamento, no entanto pensamos que deva acontecer de forma a não romper completamente a via de comunicação entre eles, ego e Si-mesmo, assim como não é saudável para a psique que a identificação continue nas próximas etapas da vida.
“O arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta.”(Jung,2008, p.17) Jacoby descreve vários autores que realizaram algumas descobertas da pesquisa moderna com crianças, de grande importância para o analista. No entanto aponta também a necessidade de não sermos vítimas da ilusão de que conhecemos exatamente como o ser humano se desenvolve, precisamos ampliar a nossa sensibilidade de escuta clínica.
Nesta relação tão singular e mágica vamos se destacando do círculo primordial da vida, com nosso sutil e destemido corpo humano e se conectando a este mundo terrestre. Por isso chamo de torre do tesouro, pois o corpo é a fonte ou a ponte de contato com os outros mundos que habitam em nós, faz a relação entre ego e self, a consciência e o inconsciente. É com ele e através dele, o corpo como torre do tesouro que desbravamos a vida.
“Ser humano é cumprir a tarefa de ressoar, estando colocado na Terra e procurando elevar-se até o Céu”. (Lorthiois, 2008. p. 55)
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